quarta-feira, 29 de junho de 2016

Exercer a nossa influência sobre alguém é darmos a própria alma, Oscar Wilde.

     O irlandês Oscar Wilde, que se notabilizou sobretudo como dramaturgo, escreveu um único romance, O Retrato de Dorian Gray, obra que causou escândalo e controvérsia na Inglaterra vitoriana. Dorian Gray é um homem rico que vende a alma em troca da juventude eterna. A passagem do tempo não lhe altera a bela aparência, enquanto o seu retrato mágico envelhece e revela a decadência interior. Expressando as preo-cupações estéticas e os paradoxos morais de Wilde, a narrativa constitui uma reflexão sobre o envelhecimento, o prazer, o crime e o castigo.
     Pela genialidade de Wilde pinçei mais este texto da obra, texto ímpar de um gênio, vale a pena lê-lo:
  

    "- É verdade que a sua influência é assim tão má, Lord Henry? - perguntou-lhe, alguns momentos depois.
    - Uma boa influência é coisa que não existe, Mr. Gray.
   Toda a influência é imoral, imoral sob o ponto de vista cien-tífico.
   - Porquê?
 - Porque exercer a nossa influência sobre alguém é darmos a pró-pria alma. Esse alguém deixa de pensar com os pensamentos que lhe são inerentes, ou de se inflamar com as suas pró-prias paixões. As suas virtudes não lhe são reais. Os seus pecados - se é que os pecados existem - são emprestados. Tal pessoa passa a ser o eco da música de outrem, o ator de um papel que não foi escrito para si. O objetivo da vida é o nosso desenvolvimento pessoal. Compreender perfeitamente a nossa natureza - é para isso que estamos cá neste mundo. Hoje as pessoas temem-se a si próprias. Esqueceram o mais nobre de todos os deveres: o dever que cada um tem para consigo mesmo. É certo que não deixam de ser caritativos. Dão de comer aos que têm fome e vestem os pobres. Mas as suas almas andam famintas e nuas. A coragem desapareceu da nossa raça. Ou talvez nunca a tivéssemos tido. O temor da sociedade, que é a base da moral, o temor de Deus, que é o segredo da religião - eis as duas coisas que nos governam. E, contudo... - Volte a cabeça um pouco mais para a direita, Dorian, seja um rapaz bem comportado - disse o pintor, absorvido pelo seu trabalho e apercebendo-se apenas de que surgira no rosto do jovem uma expressão que nunca lhe vira antes.
 O temor da sociedade, que é a base da moral, o temor de Deus, que é o segredo da religião - eis as duas coisas que nos governam. E, contudo... - Volte a cabeça um pouco mais para a direita, Dorian, seja um rapaz bem comportado - disse o pintor, absorvido pelo seu trabalho e apercebendose apenas de que surgira no rosto do jovem uma expressão que nunca lhe vira antes. 
- E, contudo - continuou Lord Henry na sua voz Grave e musical, e fazendo um gracioso gesto com a mão, tão característico, mesmo já nos tempos de Eton -, se um homem devesse viver a sua vida em toda a plenitude, dar forma a todos os sentimentos, expressão a todos os pensamentos, realidade a todos os sonhos, creio que o mundo ganharia um novo impulso de alegria que nos levaria a esquecer todos os males do medievalismo e a regressar ao ideal helénico. Talvez mesmo a algo mais refinado e mais rico que o ideal helénico. Mas o mais ousado de todos nós teme-se a si mesmo. O selvagem mutilado que nós somos sobrevive tragicamente na auto-rejeição que frustra as nossas vidas. Somos punidos pelas nossas rejeições. Todo o impulso que esforçadamente asfixiamos fica a fermentar no nosso espírito, e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e mais não precisa, pois a acção é um processo de purificação. E nada fica, a não ser a lembrança de um prazer, ou o luxo de um pesar. Ceder a uma tentação é a única maneira de nos libertarmos dela. Se lhe resistimos, a alma enlanguesce, adoece com as saudades de tudo o que a si mesma proíbe, e de desejo por tudo o que as suas leis monstruosas converteram em monstruosidade e ilegalidade. Diz-se que as grandes realizações deste mundo ocorrem no cérebro. É também no cérebro, e só aí, que ocorrem os grandes erros do mundo. E até o senhor, Mr. Gray, que se encontra na flor da juventude, viveu paixões que o atemorizaram, teve pensamentos que o apavoraram e, quer acordado, quer a dormir, teve sonhos tais, que a sua simples lembrança, fariam corar de vergonha... 
     - Não continue, por favor! - balbuciou Dorian Gray -, Sinto-me confuso. Nem sei que dizer. Há decerto uma resposta adequada, eu é que a não consigo encontrar. Não diga nada. Deixe-me pensar ou, mais exatamente, deixe-me tentar não pensar.
    Durante cerca de dez minutos, permaneceu imóvel, os lábios entreabertos e um brilho estranho no olhar. Tinha uma vaga percepção de que dentro de si atuavam influências inteiramente novas. E, todavia, pareciam ter surgido de dentro de si mesmo. As poucas palavras que o amigo de Basílio lhe dirigira - palavras proferidas por acaso, sem dúvida, e intencionalmente paradoxais - tinham feito vibrar uma corda secreta, até então nunca tocada, que sentia agora latejar ao ritmo de inexplicáveis pulsações. 
     Também a música o perturbava assim, e muitas vezes o tinha emocionado. Mas a música não recorria às palavras. Criava em nós, não um novo mundo, mas sim outro caos. As palavras, simples palavras... como podiam ser terríveis! Como eram nítidas, e vívidas, e cruéis! Não conseguíamos fugir-lhes. E, no entanto, quanta magia sutil possuíam! Pareciam capazes de dar forma plástica a coisas informes e de possuir música própria tão suave como a da viola e do alaúde. Meras palavras!   
     Haveria alguma coisa tão real como as palavras? Haviam ocorrido coisas durante a sua meninice que, nesse tempo, não entendera. Compreendia-as agora. A vida surgia-lhe, de repente, com um colorido flamejante. Tinha a sensação de ter caminhado sobre o fogo. Por que não soubera antes?
     Com o seu sorriso sutil, Lord Henry ficou a observá-lo. Ele sabia qual o exato momento psicológico em que devia permanecer calado. Sentia um interesse enorme. Ficou surpreendido com a súbita impressão que as suas palavras haviam provocado, e, recordando um livro que lera aos dezesseis anos e que lhe desvendara muitas coisas que antes ignorava, interrogava-se se Dorian Gray estaria passando por experiência semelhante. Limitara-se a atirar uma seta para o ar. Teria atingido o alvo? Que rapaz tão fascinante! Hallward continuava a pintar, com aquele seu estilo ousado e magnífico, que possuía verdadeiro requinte e perfeita delicadeza, e que, pelo menos em arte, só provém da força interior. Nem se apercebeu do silêncio que se fizera. - Sinto-me cansado de estar de pé, Basílio - exclamou Dorian Gray, de repente. - Preciso de ir sentar-me um pouco lá fora no jardim. O ar aqui dentro está sufocante. 
     - Desculpe, meu amigo. Quando estou pintando, não consigo pensar em mais nada. É que você nunca posou tão bem, esteve perfeitamente imóvel. Captei o efeito que pretendia: os lábios entreabertos e o brilho do olhar. Não sei o que Harry lhe esteve a dizer, só sei que lhe provocou essa expressão maravilhosa no rosto. Provavelmente esteve a dirigir-lhe elogios. Mas não acredite em nenhuma das suas palavras. 
     - Pode ter a certeza de que ele não me fez elogios. Talvez seja por isso que não acredito em nada do que me disse. 
     - Sabe perfeitamente que acredita em tudo o que lhe disse - interveio Lord Henry, fitando-o com o olhar lânguido e sonhador. - Acompanho-o ao jardim. Está um calor horrível dentro do estúdio. Dê-nos qualquer coisa gelada para beber, Basílio, uma coisa que tenha morangos. 
     - Com certeza, Harry. Toque a campainha, e quando Parker aparecer transmitir-lhe-ei o seu pedido. Tenho que trabalhar este fundo, por isso só irei ter convosco mais logo. Não me retenha Dorian muito tempo. Nunca esteve em tão boa forma para pintar como hoje. Esta vai ser a minha obra-prima. Ela já é a minha obra-prima assim como está.
     Lord Henry foi para o jardim. Encontrou Dorian Gray com o rosto mergulhado nos grandes cachos frescos de lilases, absorvendo-lhes febrilmente o perfume como se fosse vinho. Aproximou-se dele e pousou-lhe a mão no ombro. 
     - Faz muito bem em fazer isso - murmurou. - Só os sentidos podem curar a alma, assim como só a alma pode curar os sentidos. 
     O rapaz sobressaltou-se e recuou. Estava de cabeça descoberta, e as folhas tinham-lhe despenteado os anéis rebeldes do cabelo, enleando-lhe as madeixas douradas. Tinha um olhar assustado, como o daquelas pessoas que são acordadas de repente. As narinas, de linhas delicadas, fremiam, e um nervo oculto fazia tremer os lábios rubros. 
     - É verdade - continuou Lord Henry -, esse é um dos grandes segredos da vida: curar a alma através dos sentidos, e os sentidos através da alma. O senhor, Mr. Gray, é uma maravilha da criação. Sabe mais do que julga que sabe, mas também sabe menos do que quer saber. 
     Dorian Gray, de semblante carregado, voltou a cabeça para o outro lado. Não podia deixar de gostar do homem alto e grácil que estava junto de si. Despertavam-lhe interesse o rosto romântico cor de azeitona e a sua expressão fatigada. Havia algo na voz Grave e lânguida que era extraordinariamente fascinante. Até as mãos, brancas e frias como flores, possuíam um estranho encanto. Quando falava, moviam-se como música, e pareciam ter uma linguagem própria. Mas tinha medo dele e tinha vergonha de ter medo. Por que havia de ter sido um desconhecido a revelar-lhe o seu próprio íntimo? Já se tinham passado meses desde que conhecera Basílio Hallward, contudo a amizade entre eles não o tinha modificado em nada. E, logo assim, de súbito, deparou com uma pessoa que parecia ter-lhe desvendado o mistério da vida. E o que havia a recear? Não era nenhum rapazinho, nem uma menina... Era absurdo sentir medo. 
     - Sentemo-nos à sombra - sugeriu Lord Henry. - Parker já trouxe as bebidas, e se o senhor permanecer mais tempo sob este sol escaldante, vai ficar com a pele estragada, e, depois, Basíliol não voltará a pintar o seu retrato. Na verdade, não se deveria deixar queimar pelo sol. Não lhe ficaria nada bem. 
     - E que importância tem isso? - exclamou Dorian Gray, a rir, sentando-se num banco ao fundo do jardim. 
     - Devia ter muita importância para si, Mr. Gray. - Porquê? - Porque tem uma juventude deslumbrante, e a juventude é a única coisa que vale a pena ter.
     - Não penso assim, Lord Henry.
     - Pois não, não pensa assim agora. Um dia, quando for velho, enrugado e feio, quando o pensamento lhe tiver sulcado a fronte de rugas, e a paixão, com suas chamas medonhas, lhe tiver crestado os lábios, sentirá então uma impressão terrível. Agora, aonde quer que vá, consegue seduzir todas as pessoas. Mas será sempre assim? Tem um rosto de beleza deslumbrante, Mr. Gray. Não precisa de fazer esse ar tão contrariado. É verdade. E a Beleza é uma forma de gênio, sendo mesmo superior ao gênio, pois não necessita de ser explicada. Ela faz parte dos grandes elementos do universo, como a luz do sol, a Primavera, ou o reflexo nas águas noturnas, dessa concha de prata a que chamamos lua. Não pode ser contestada. Tem o direito divino de um soberano. Transforma em príncipes os que a possuem. Sorri? Ah, quando a tiver perdido, deixará de sorrir... Por vezes, ouve-se dizer que a Beleza é apenas superficial. Talvez seja. Mas, ao menos, não é tão superficial como o Pensamento. Considero a Beleza a maravilha das maravilhas. Só os fúteis não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, e não o invisível. Sim, Mr. Gray, os deuses foram-lhe favoráveis. Mas os deuses dão agora, para tirar depois. O senhor tem tão-somente alguns anos para poder viver a vida em real plenitude. Quando a mocidade se for, com ela irá a sua beleza, e, então, cedo descobrirá que não lhe restaram êxitos, ou terá que se contentar com os êxitos insignificantes, que a lembrança do passado tornará mais amargos do que às derrotas. À medida que os meses vão minguando, eles vão-no aproximando de algo terrível. O tempo tem ciúmes de si, e faz guerra à primavera dos seus anos. Então, ficará com a pele macilenta, as faces encovadas e o olhar mortiço. Irá sofrer tormentos... Ah! Tome plena consciência da sua juventude enquanto a possuir. Não esbanje o ouro dos seus dias a dar ouvidos a gente maçadora que tenta aproveitar o fracasso irremediável, nem perca o seu tempo com os ignorantes, os medíocres e os boçais. São esses os objetivos doentios, os falsos ideais dos nossos dias. Viva, viva a vida maravilhosa que existe em si! Não desperdice nenhuma oportunidade, procure sempre novas sensações. Não tenha medo de nada... Um novo Hedonismo - eis o que faz falta ao nosso século. O senhor podia ser o seu símbolo vivo. Com essa sua personalidade, não existe nada que não possa fazer. O mundo pertence-lhe por um determinado tempo... No mesmo instante em que o conheci, Mr. Gray, vi que o senhor não tinha consciência da sua verdadeira natureza, nem do que poderia ser. Havia em si tantas coisas que me fascinaram, que achei que devia falar-lhe de si. Pensei que seria muito trágico se se fosse perder. É que é tão breve o tempo de duração da sua mocidade... tão breve. As vulgares flores silvestres fenecem, mas voltam a florir. Este laburno estará tão amarelo em Junho do ano que vem como está agora. No espaço de um mês, a clematite ficará coberta de estrelas cor de púrpura, e, ano após ano, a noite verde das suas folhas vai segurar as mesmas estrelas avermelhadas. Mas nós nunca recuperamos a nossa mocidade. O pulsar de alegria, que em si lateja aos vinte anos, perde o vigor. Os nossos membros tornam-se débeis, os sentidos definham. Vamos degenerando até nos transformarmos em fantoches hediondos, perseguidos pela lembrança das paixões que tanto temíamos, e das requintadas tentações a que não tínhamos coragem de ceder. Ah, juventude... juventude! Não há absolutamente mais nada no mundo senão a juventude.
    Com olhar de espanto, e cheio de dúvidas, Dorian Gray ouvia atentamente. Deixou cair no chão de cascalho a haste de lilás que segurava. Uma abelha peluda aproximou-se dela e andou zumbindo à sua volta por uns instantes. Depois, começou a trepar pelo maciço oval de minúsculas flores estreladas. Dorian observava-a, com aquele estranho interesse que fazemos por tomar pelas coisas triviais, quando coisas de maior importância nos causam medo, ou quando somos agitados por uma nova emoção que não sabemos definir, ou quando o nosso cérebro é subitamente assediado por um pensamento terrível que nos exorta a rendermo-nos. Pouco depois, a abelha voou para longe. Viu-a rastejar para o interior da campânula irisada de uma trepadeira. A flor pareceu estremecer e, logo, começou a balouçar suavemente."

Obra O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde - 
pags. 15/19



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Cena indizível que Flaubert bem sabe descrever!

 Considerada a obra mais importante do francês Gustave Flaubert, Madame Bovary não tem nada de um romance de suspense moderno. Trata-se da história banal de uma mulher mal casada que trai o marido, o arruína e acaba se suicidando, por ter se perdido, perseguindo quimeras inspiradas em romances “água com açúcar”. Considerada a obra mais importante do francês Gustave Flaubert, Madame Bovary não tem nada de um romance de suspense moderno. Trata-se da história banal de uma mulher mal casada que trai o marido, o arruína e acaba se suicidando, por ter se perdido, perseguindo quimeras inspiradas em romances “água com açúcar”.
     A obra foi um escândalo à época por narrar a história de um adultério. Mas Flaubert faz uma perfeita descrição dos estados de espírito de Madame Bovary, chegada a sonhos com aventuras maravilhosas, tão precisa que foi forjado um termo para designar o mal que a consome: o bovarismo. Flaubert narra com maestria os anseios e medos de Madame Bovary pelo comportamento de mulher adúltera numa época que este comportamento era um pecado capital. Seleciono ora um trecho histriônico em que se deparam duas personagens que encontrava em transgressão e ambos dissimulam o susto do encontro inesperado nesta situação:

     "Pouco a pouco, aqueles receios de Rodolphe tomaram posse dela. O amor tinha começado por embriagá-la, não a deixando pensar em mais nada. Mas agora, que se lhe havia tornado indispensável à vida, receava sofrer-lhe a mínima perda, ou até mesmo perturbá-lo. Quando voltava de casa dele, lançava em torno de si olhares inquietos, vigiava cada vulto que passasse torno de si olhares inquietos, vigiava cada vulto que passasse no horizonte e cada postigo da vila donde pudesse se avistada. Escutava os passos, os gritos, o ruído das charruas; parava mais pálida e mais trémula do que as folhas dos choupos balouçando por cima da sua cabeça.. <     Certa manhã em que voltava para casa pareceu-lhe de repente distinguir o longo cano de uma carabina que dava a impressão de estar apontada para ela. Saía obliquamente do rebordo de um barril, meio escondido na vegetação, à beira de uma vala. Emma, quase a desmaiar de terror, continuou no entanto a avançar, quando do barril surgiu um homem, à semelhança daqueles diabos de mola que saltam repentinamente do fundo das caixinhas de surpresas. Tinha polainas afiveladas até aos joelhos, boné enfiado até aos olhos, os lábios a tremer e o nariz vermelho. Era Binet, o comandante dos bombeiros, à espera dos patos bravos.-  
Flickr     Devia ter avisado de longe! - exclamou ele.
     - Quando se vê uma espingarda, deve-se sempre dar sinal. Com este arra-zoado, o tesoureiro procurava dissimular o medo que aca
-bara de sentir; porque, existindo uma postura municipal que proibia a caça aos patos a não ser de barco, o senhor Binet, apesar do seu respeito pelas leis, encontrava-se em transgressão. De maneira que lhe parecia ver surgir, a cada instante, o guarda-florestal. Mas este sobressalto excitava-lhe o prazer e, sozinho dentro do seu barril, felicitava-se pela sorte e pela esperteza que tinha. Vendo Emma, pareceu aliviado de um grande peso e, entabulando imediatamente a conversação, disse:
     - Não faz calor nenhum, está um frio que corta!
     É verdade - balbuciou ela. - Venho de casa da ama onde está a minha filha. >
     - Ah, perfeitamente. Perfeitamente. Pois eu, tal como me vê, estou aqui desde madrugada; mas o tempo está tão enevoado que, a não ser que me venham parar as penas mesmo à boca do cano.
    - Passe muito bem, senhor Binet - interrompeu ela, voltando-lhe as costas.
     - Às suas ordens - replicou ele secamente. 
     E voltou a enfiar-se no barril.
     
     Emma arrependeu-se de ter deixado assim tão bruscamente o tesoureiro. Ele iria sem dúvida fazer conjecturas desfavoráveis. A história da ama era a pior desculpa, porque toda a gente sabia em Yonville que a pequenita dos Bovary há um ano já que voltara para casa dos pais. Além disso, não morava ninguém por ali perto e aquele caminho só dava passagem para a Huchette; portanto, Binet calculara donde ela vinha e não se calaria, daria à língua, era mais que certo! Emma ficou até à noite a torturar o espírito com todos os projetos de mentiras magináveis, vendo sempre na sua frente aquele caçador imbecil.

Madame Bovary, Gustavo Flauber, pags. 127/128


sábado, 25 de junho de 2016

Falece nos EUA o "brasilianista" Thomas Skidmore!

À epóca da ditadura não valia a pena ler jornais ou revistas. A censura com a sua afiada tesoura tolhia as notícias não agra-dáveis ao regime militar resultando um matérias dis-formes. Uma sensa-boria literalmente.
     Com esta inflexão arbitrária das in-formações políticas nacionais, era mais saboroso ler a política internacional. Época em que eu conhecia mais os políticos estrangeiros do que os homens da Arena.
      Outra fonte de informação era no campo da História. O index da ditadura militar era draconiano e medieval. Os brasilianistas para suprir a nossa sofreguidão de informações. Brasilianistas eram  pesquisadores ame-ricanos detinham um amplo acesso a documentos e dados arquivados, ao contrário dos intelectuais brasileiros, o que os colocava em uma situação de superioridade em relação aos pesquisadores natos.
    Mas se foi o tempo em que estas figuras alienígenas, típico gringo, a grande maioria norte-americanos, sem domínio total da nossa língua. Foram para as calendas gregas o que os anos 1970 e 1980 elevavam em  95% a proporção de estrangeiros que estudavam nosso país. Justamente por isso, implicava um olhar até exótico sobre o Brasil. Hoje, há uma novidade: o crescimento considerável de brasileiros radicados no exterior que se interessam pela terra de origem com a derrocada dos efeitos da ditadura. 
     Com efeito vi o registro da nota de falecimento do famoso brasilianista, Tho-mas Skidmore e me decidi reler as obras. Que decepção reler algo que com a minha miopia intelectual achei uma obra relevante.
     Bem definiu a revista Carta Capital: Morreu nos EUA o "brasilianista" Thomas Skidmore. Os registros de óbito, no Brasil, o con-duziram ao reino dos céus. Assim seja. Ele escreveu "Brasil - de Getúlio a Castelo, um livro fraco, no qual insinua que João Goulart poderia ser filos de Getúlio Vargas. Mera e boba especulação. Circula nos meios acadêmicos uma setença implacável sobre ele. Como historiador era chamado de "Skidmore or less".



domingo, 3 de janeiro de 2016

Costa e Silva, ditador rancoroso!

Cacimbão quadrado, Vôte! Era só o que faltava inventar.


O preto Salviano era um monstro
como cavador de cacimbão. Toda a cidade sabia disso. Aceitava a fama do negro sem discussão. Era mestre de tampa e rampa. Professor que tinha discípulos. E com isso, ganhava dinheiro bastante para viver e sustentar a família – d. Severina e oito moleques taludos.
Salviano cavava cacimbão, tomando cana, fazendo poesia e contando história e contando histórias. Histórias de briga, de samba, de valentia, de cangaceiros, de assassinatos e lutas conta a polícia.
Era um gozo ver aquela lapa de negro, grandalhão e musculoso, nos dias de feira – já no fim – no meio do comércio, escachado, de chapéu caído para trás, olhos avermelhados, risonho, gingando e aos pinotes, repetindo incessantemente:
- O bom daqui sou eu, Salviano, o Pai dos Homens!
O povo fazia roda e ria com aquela esculhambação.

***
Quando eu voltava das audiências forenses, de saco cheio de inquirição de testemunhas mentirosas, de “viveiro”, na defesa de direitos perdidos, ficava, de cuecas, desopilando o fígado ingurgitado, na beira do cacimbão, ouvindo as bravatas do negro. Gozava como menino, escutando histórias de mil-e-uma-noites. Atiçava e dava corda nele e aí era que o preto botava as unhas de fora. Zé Bonitinho e Chico Pirão, companheiros e ajudantes dele, davam testemunhos dos seus sucessos, mostrando lá do fundo do buraco, suas caras cínicas:
- Foi assim mesmo. A gente estava lá...
- O doutor não acredita, mas foi. Só se vendo.
O negro contava mais um caso:
- Um dia entrei na bodega de seu Emídio Cunha, já bebaço. Dia de feira. Estava já escurecendo. Havia uns quatros sujeitos dentro da bodega. Uns conhecidos e amigos do copo. Quanto um bicho pulou em cima de meus pés e dei um salto de lado, assustado que nem um gato. Ai eu vi um cururu do tamanho de boi. Pois num é que eu fiquei com raiva do baita e mandei botar um oito de cana. Peguei o peste de jeito e tomei uma lapada, tirando o gosto com a perna do bichinho... – e ria um quá- quá- quá ajumentado.
Eu reclamei:
- Está mentindo negro.
- Mentindo, não. Pergunte a seu Emídio.  Queimei minha boca toda. Adoeci e fiquei inchado. Foi uma inchação danada. Quase morro. Quem me tratou foi doutor Otacílio Jurema. Para nunca mais. Cachaça é o diabo. Vocês aí sabem do caso – o negro pedia prova aos companheiros de trabalho. Zé Bonitinho me espiou sossegadamente:
- Foi isso mesmo. Você quase estica as canelas. Ainda andou conversando com o diabo na porta do inferno... Num foi Pirão?
- Eu fui o comprador dos remédios. Sei de tudo como foi. Eu fiz até guarda ao negro velho. Todo mundo aqui sabe dessa história – confirmou Chico Pirão, cavando a piçarra, sem me olhar.
Ri, incrédulo. O negro era um presepeiro de marca.

***
 Eu tinha herdado, de minha avó, um casa na praça da Matriz. Um casa dos tempos coloniais, malassombrada  e cheia de botija. Eu era um ateu, mas comida um medo dando, inconsciente, pré-histórico, de almas. Daí nasceu a ideia de modernizar o casarão velho, para enxotar os espíritos reacionários, desbotijando também o dinheiro. Rasguei áreas onde havia tenebroso e imbecil corredor, destruindo-o. fiz nova divisão interna. Melhorei tudo e até coloquei um portão de ferro na entrada. Na primeira sala, instalei o meu escritório. Do lado de fora preguei a placa esmaltada de doutor-advogado. Assim fui gastando o dinheiro da minha magra profissão. E como não restasse mais o que fazer, resolvi abrir, no muro, bem perto da cozinha, um cacimbão. Não sei mesmo para que me meti com aquilo. Era uma besteira, pois não resolveria o problema de abastecimento d’água. Os cacimbões do centro da cidade somente davam água salobra e ruim. Foi pura maluquice de um bacharel folgazão e meio desocupado. E por aí veio uma mudança total no rumo da minha vida. Terminei querendo salvar o Brasil. Foi danado. Só contando o caso.
***
Mandei um recado para o mestre Salviano. O negro chegou todo compenetrado. Examinou o chão, apalpando-o, como se estivesse galinhando uma mulher. Depois ciscou como praqui e pracolá. Escavacou um pedaço. Pôs o ouvido na terra, escutando-a, em de cócoras, deu o diagnóstico profissional.
- Te uma camada de barro vermelho de três palmos; depois tem uma camada de pedra mole, piçarra, de quatro ou cinco palmos; depois vem outra de pedra-rocha, preta-azulada, dura que nem o diabo, que só um tiro dará um jeito. E depois quando a gente tiver cavado uns vinte e dois palmos, ficando rente com a água do açude Velho, aí rebenta a veia d’água salobra. Com os tempos, a água vai ficando melhor e mais doce. Conheço o chão de Cajazeira que nem a negra lá de casa. Já cavei aqui mais de trinta cacimbões. Eu sei abrir esses buracos e riu, mostrando a dentadura sadia, forte, num rosto anguloso, pintado de ar vaidoso de perito no ofício.
- Olhe, negro, quero um cacimbão de boca quadrada, de ois metros por dois. Compreendeu?
Salviano arregalou os olhos pretos e espantados:
- Quadrado?! Vote! Nunca fiz desse jeito. Todos são redondos. Quadrado num dá certo. O cacimbão fica com as beiradas em força e desaba as barreiras. É um perigo. Este doutor é cheio de novidades. Ora, quem já viu disso...
- Mas você acabou de me dizer que o chão tem oito palmos de barro e piçarra; e que é de pedra-rocha. Pois bem, quando se chegar neste ponto, você fará o alargamento para assentar as fiadas de tijolos, montadas na pedra-rocha, e aí vai fazer o enquadramento da boca, e colocará as traves. Entendeu, negro velho?
- Já sei o que o senhor quer. Vá lá. A gente faz até economia de tijolo de revestimento, que no cacimbões redondos começa desde o fundo até em cima. Vai ficar feio como diabo. Vôte!
O preto ficou ainda a duvidar do meu plano, cismando como se quisesse dizer – amarro o burro no pescoço do nodo. Era o jeito. O doutro era mesmo o Timóteo da família. Um cancão de Fogo.

***
A história do cacimbão quadrado tomou conta da cidade. Os entendidos e os coronéis comentavam o assunto, fazendo pilhérias e criticando meu projeto já em execução:
- O doutor Rolim está abrindo um cacimbão quadrado. Era só o que faltava inventar. Quem já viu uma coisa dessa? É isso – esses meninos vão estuar e quando voltam, vem com ideias adoidadas. Falam dos padres, dos santos, de Deus e de tudo. Nada presta na boca deles. Não sei porque se bota filho pra estudar. Voltam de cabeça virada. Aquilo vai dar me cabeça de gente.
- Já o filho do compadre Jurema dá desgosto todos os dias. Inventou agora um tal de cabaré no rabo da gata. Junta-se com os cachaceiros da cidade, e haja farra de noite inteira; terminam no açude Grande, no banho, com o mulherio. A terrinha do padre-mestre Rolim está perdida. É uma praga. Taí em que deus os estudos.
As mulheres dos coronéis martelavam:
- Esses bichos não querem se casar pra viver de escândalos. São uns perdidos!  Agora lá vem aquele maluco com um negócio de cacimbão quadrado. Quem já viu disso é só prá ficar com o nome na rua... Ele tem o ar de doido. Você já reparou?
Os padres também aproveitavam a onda. Nos sermões, aos domingos, metiam a língua martelando:
- Doutores amaldiçoados que só cuidam da corrução do povo. A nossa cidade, abençoada e piedosa, perdeu o seu respeito. Meia dúzia de doutores desocupados inventou cabarés, bebedeiras, farras, maçonaria, espiritismo, comunismo e outra desgraças que estão corrompendo os nossos costumes de cidade cristã.  Mas nós, os vigários de Cristo, estamos alertados para lutar contra os criadores de novidades na terra do Padre Rolim, e até mesmo contra os inventores dos cacimbões quadrados, que provocam risos na cidade. Inventaram que Cajazeiras é do povo, traindo Mãe Aninha e os Rollins...
Eu gozava com a implicância dos reacionários. Meu cacimbão era um símbolo contra a rotina. Contra Cajazeiras de cacimbões redondos. Eu era de raça teimosa, cabeçuda e mangofeira.
Fiquei sozinho contra a cidade.


***
O preto Salviano, por pagode, deixa o porão do muro aberto, bem escancarado, para a entrada dos incréus, que ali iam bancar S. Tomé, vendo e pegando na terra do cacimbão quadrado. Eu me ria com o pasmo de suas caras. Era bom e gozado.
Os quatros primeiros palmos da escavação, foram pagos na base de cinco mil réis, cada um, na piçarra, de sete; e o restante na base de doze. Era demais. Parecia obra do Governo.
Eu sentia prazer em ficar na boca do cacimbão observando o rasgamento de minha terra natal. Vendo as camadas formadores do seu ventre geológico, de barro vermelho, de pedra-mole, esverdeada, e depois, rocha-azulada, e a direção das veias de massapê, da infiltração da água no sub-solo (sic).  Era bonito. Era gostoso.
O montão de terra crescia todos os dias e a meninada da rua do Cisco brincava em cima, imitando os bandidos de cinema.
Eu passava, horas e mais horas, embebido, espiando o trabalho, dos três homens, que se enterravam no chão, conversando, gargalhando, contando casos, com a imaginação estimulada pela cana dos alambiques do Ceará o negro Salviano, foi-não-foi, parava de trabalhar, olhando para cima, repisando:
- Pois é, doutor, o cacimbão vai que vai danado, embora o povo esculhambe e meta o pau.... Ó povo besta!
- O povo é idiota, não sabe o que diz – respondia com chavão, zombando dos rotineiros. Dos reacionários.
- É mesmo – confirmava o negro, já enterrado, até o pescoço nas entranhas da terra e lavado de suor. E aí contava mais um caso de sua vida aventureira.
- em mil novecentos e trinta e dois, eu resolvi não trabalhar, para me vingar do prefeito Hildebrando, porque, um dia fui pedir serviço na Prefeitura e ele me disse que não tinha. Que estava esperando ordens do Governo.  A seca estava danada, passando a língua nos beiços, e eu aí disse que não podia esperar mais. Não tinha o que comer. Pois sabe o que ele disse:
- Mandou apertar o cinturão – respondi.
- Nada. Disse assim: “então morra”. Saí de lá com a gota serena. Passei na ponte do Colégio, pisando em brasas de forja.  Quando fui subir a ladeira do Alto Cabelão, pedi a Deus que me ensinasse um jeito para resolver a minha situação. Rezei um Padre-Nosso bem apertado e fiquei mais calmo. Demorei mais as passadas, olhando o céu, atrá de um sinal, quando avistei uma urubuzada, fazendo roda, com uns descendo e outros subindo. O céu pretinho!
- Quer dizer que você estava urubusservando os colegas... – E o negro ficou com a cara mexendo, saindo-se:
- Isso mesmo. Aí me botei para o lugar da carniça. Lá encontrei um garrote morto. Me cheguei perto e tangi os urubus. Eram como diabo. Examinei o ferro. Era do coronel Sabino. Uma coisa me disse que podia tirar um pedaço daquela carne em nome da catinga. E eu mais depressa puxei a faca e cortei um pedaço do coxão do garrote. Trouxe prá casa, na rua do Pau Não Cessa. Minha mulher ficou zangada com os meu planos e com a catinga da carne. Mas eu não me incomodei. Mandei chamar os meus dois cunhados. Expliquei o negócio todo. A gente iria pra o Ceará, entrando pela cidade do Baixio. Eu com o pedaço de carne podre amarrado na perna, coberto pela calça, caxingando, escorado numa vara, feito um aleijado de ferida braba. Meus cunhados ficavam nas pontas das ruas, esperando a “colheita”, com a panela no fogo, debaixo dos paus foi o melhor do chão. Tirei comida como o diabo.  Quando era no fim da semana, um deles ia deixar a “feira” da família aqui. Foi bonzão. Chega a gente até deu prá engordar. O hoem é bicho astuciosmo, seu doutor. É rei mesmo.
- Está mentindo, negro de uma figa!
- Juro por tudo que é sagrado. Me vinguei do Prefeito e do Governo. Passei a seca luxando, que em gente rica. Percorri umas quinze cidades do Ceará. Quando eu entrava numa loja com a minha catinga, o dono, sem mais conversa, ia logo despejando no meu saco, feijão, farinha, carne, tudo. Às vezes me dava um dinheirinho. Na casa dos grandes a coisa era melhor. Quando a catinga entra de porta a dentro, aí não prestava não. Corria tudo...
- E essa carne do garrote durou a seca toda?
- Nada. Quando a carne ia secando, eu molhava. Quando não prestava mais, eu arrumava carne no açougue e botava para apodrecer. Quando ele estava bem cheirosa, eu sapecava catinga nas ventas dos coronéis e aí a coisa não prestava não... Tempo bom! Eu sou mesmo o mestre Salviano, o Pai dos Homens!


***
Agora o cacimbão estava na pedra-rocha, bem escura. O negro Salviano cavoucava-a , com buraco de dois palmos, preparando os tiros com meio cartucho de pólvora. Eu recomendava:
- Bote estupim com quatro palmos, prá dar tempo a vocês saírem sem perigo da explosão imediata. Cuidado com essa cana...
- O doutor quer ensinar padre-nosso a vigário. Só o que faltava eu também sou doutor em cacimbão, doutor José Salviano da Silva. E num sou sacana não, pois não procuro macho prá mãe... minha!
Os tiros estrondavam dentro da cidade. As casas estremeciam.  Salviano botava um couro de boi na boca do cacimbão, para impedir a subida dos estilhaços. De manhã, cavava a buraqueira. De tarde, os tiros. É o cacimbão ia se aprofundando. Já media uns vintes palmos, revendo água azulzinha, sob a marreta da turma de negros. Os destroços formavam um morro da altura dos muros.
Estava numa audiência, quando chegou Zé Bonitinho, vexado, informando que Salviano havia botado um tiro maior, de um cartucho de pólvora. Que um grande estilhaço tinha caído no teto da igreja, rebentando-o. que a pedra tinha caído nos pés da padroeira, Nossa Senhora da Piedade. E que o vigário estava lá, revoltado e culpando-me. Que a coisa estava preta. Ia haver barulho.
Aporrinhado, saí. Encontrei uma multidão na frente de minha casa. O vigário insultava o negro, mostrando a pedra profana. Todos estavam contra o preto. Fui chegando e o vigário partiu pra cima de mim feito um cavalo do cão, dizendo-me:
- Um absurdo este negro, embriagado, quase acaba com a Igreja. É um irresponsável. Você precisa tomar providências senão vou ao delegado. Um negro safado desse, cheio de cana...
- Isso é um mero acidente, como outro qualquer, seu vigário. O senhor quer escandalizar... fazer espetáculo.
- Escandalizar, não. Quem escandaliza a cidade é o senhor com as novidades... Os doutores!... O povo sabe! ...
- Já sei. Nós somos os culpados de tudo que acontece aqui contra a vontade de Deus w s Igreja. Até da seca...
O padre me botou os olhos fanáticos, claros, e pisando duro, de cabeça alevantada, deu o fora o negro Salviano, de marreta me punho, recostado na parede, guardado pelos companheiros, esperava os acontecimentos.  E me resumiu o fato:
- Não sei de nada. O tiro foi demais. A pedra subiu e foi cair na Igreja. Nossa Senhora não sofreu nada nem reclamou. O vigário é que veio com besteira. Consertou aquilo, ora pronto. Não houve nada. Fica tudo na boa. E aquele urubu pode falar da gente!
- Você está bebendo demais, negro.
- O serviço é duro, seu doutor. Só com cachaça. Aquele padre quer botar catinga na gente. Era só o que faltava. Vôte! A coisa não vai prestar... – e cuspiu bala na parede, gingando, e dizendo que era o “o pai dos homens”.


***
O trabalho do cacimbão fiou parado uns dias, a pedido do meu pai. Paguei o conserto do trabalho da Igreja depois, mandei o negro continuar o serviço da escavação. As águas estavam perto. O cacimbão já tinha vinte e oito palmos de profundidade. Recomeçaram os tiros, comis dois couros de boi servindo de tampão.  Os vizinhos andavam assombrados. A cidade nervosa. Irritada. Mas o cacimbão tinha que ser termina. Era agora capricho meu. Os tiros sacudiam o solo. A trinca de negros ria, na cozinha, com as explosões, cabriolando; e gritava pilhérias e fazia o passo:
- Lá vai mecha! Pum! Eita seiscentas picas! Pum! Pum!
- Arrasa, diabo! Quero ver feder, esta pinoia... Xô!
De manhã a trempe de pretos entrava no fundo do cacimbão, para arrancar as pedras com cunhas de aço. Um caixão subia e descia num carretel, despejando os destroços das explosões. Eu ficava, de cócoras, na boca do cacimbão, cubando o movimento. Fazendo cálculos mentais, doido que a água rebentasse das veias da pedra-rocha. Inquieto, descia pela escada para examinar o fundo do cacimbão, que já minava água. O calor lá dentro aumentava. Mestre Salviano garantia que, com mais três palmos, o lençol d’água espirrava. Não havia mais dúvida. A despesa crescia, e eu já tomava dinheiro emprestado para empurrar o serviço. Aborrecido, censurava:
- Você só tem fama, negro. Cadê seus cálculos? Você é um potoqueiro. Um cagador de goma. Cadê a água?
O negro ficava calado, pesaroso e ofendido, marretando a pedra com raiva, furioso, seminu e suado. Ninguém contava mais fanfarronadas nem havia  poesia nas histórias e aventuras.~


***
No fórum, o juiz interrogava um réu, quando se ouviu estrondos nos trabalhos do cacimbão.  Eu riscava bonecos num papel. O juiz riu, zombeteiro, e me perguntou se aquilo não tinha mais fim. Mascarei-me de coragem e fiquei meio bruto;
- Já está revendo água. O negro diz que são os últimos tiros. O lençol d’água está rebentando. É um abacaxi. Mas vai... vai ou lasca! Eu arranco o cabaço desta cidade! - e ri-me.
Zé Bonitinho entrou na sala de audiências, de supetão, cansado, sujo e choroso. E foi logo dizendo:
-Salviano morreu dentro do cacimbão! – e disparou num choro tremido, enxugando as lágrimas com a carapuça de um velho chapéu de massa, sem cor e grudado.
- Como diabo foi isso? – perguntei, chocado.
- Ele tocou fogo no estopim e quando foi subindo na escada, ela se quebrou em dois pedaços e ficou ele preso, dentro... Nem gritou por gente! Que desgraça, meu Deus!
- Só era ter arrancado logo o estopim do fogo. Que diabo! Burro! Foi um suicídio. Que diabo! Foi a cachaça danada!
Saí correndo, emocionado. Era a praga das beatas.


***
Estudei uma resposta aos meus perseguidores. Mandei fazer um enterro de rico para o negro. Como se fosse ele um grande da terra, um coronel feudal, com toas as glórias fúnebres – sinal dobrado, disco na difusora, coroas, corpo encomendado e o ovão pobre acompanhado o caixão ao cemitério. Comentários pulavam do burburinho da massa, fazendo a biografia do mestre:
- Era um negro gozado. Vai luxando, o Pai dos Homens!
Na beira da cova, fiz um discurso violento, romântico e sonhador, que foi um hino de esperança aos trabalhadores, como classe dominante do futuro. Foi um escândalo encravado como um marco na história de Cajazeiras. Abalei os alicerces sociais da cidade. O bispo, meu tio, teve um enfarto, quando me censurava.
Não satisfeito, vendi a casa. Entreguei à família do finado dez contos de réis. Mandei construir, na entrada do cemitério, um mausoléu, em forma de pirâmide, faraônico, sobre a sepultura do preto. Abafou os túmulos das famílias dos coronéis. E na lusa a inscrição – AQUI JAZ MESTRE JOSÉ SALVIANO DA SILVA, O PAIS DOS HOMENS – 13-8-40.
Briguei com meus parentes. O velo meu pai nunca mais fez barba nem saiu de casa. Estava desgostoso. E eu também.
Numa noite urgente, escura e sem futuro, desesperado, arrumei minha bagagem e meus códigos, resolvido a pregar Direito noutra freguesia. Empanturrado de tristeza, zarpei numa boleia de caminhão carregado de fardos de algodão, quando ainda era preta a madrugada. Raposas e preás, tontos, ofuscados pelos faróis do carro, procuravam cruzar a rodagem às cambalhotas. Vi também vultos magros, sombrios na estada do meu futuro, carregando fardos cívicos de uma vida inútil e sem esperança num país de ladrões. Tive raiva – um povo inconsciente de sua força e de seus direitos brutalizado por eia dúzia de sacanas. Trinquei os dentes.
O caminhão roncava forte, subindo e descendo ladeiras, dançando nos catabis bocas-de-pilão. Rodávamos, eu e ele, aos solavancos, pelos caminhos do mundo. Deu um mundo perdido. Tive ódio e fazia frio. O conselho de meu pai foi se chegando, de mansinho, fungado, sob um bigodão grosso e aparado:
- “- Menino, em terra de sapo de cócoras com ele...”

Pensei em regenerar-me. Ganhar dinheiro. Ser rico, poderoso, reacionário, como são os exploradores do povo. Ri-me sinistramente, preocupado em criar juízo, voltar vitorioso e festejado. Vi uma fila de bajuladores. Os galos cocoricavam.