Tinha vontade de conhecer Zé Limeira, o poeta do absurdo, nada de achar o livro fora de catálogo, um amigo chegou a me dar um de presente de aniversário um livro do Patativa. Demorou até achar um sebo de Recife. Hoje com a internet esmaeceram as dificuldades, mas... Eis a razão de mais este blog. A disponibilização de livros, em especial da historiografia do alto sertão paraibano e mais ainda da microrregião de Cajazeiras. Espero colaborações, enviar pelo e-mail claudiomar.rolim@uol.com.br
domingo, 27 de dezembro de 2015
sábado, 26 de dezembro de 2015
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
A MEDIUNIDADE DE FORTES
Em uma dessas viagens a Minas Gerais, Chateaubriand testemunhou um estranho fenômeno que o marcaria pelo resto da vida. Como sempre que ia a Belo Horizonte, deixou a mala e hotel e dirigiu-se ao prédio onde funcionavam os dois jornais. Reuniu-se com os seus diretores, conversou, deu ordens e quando eram dez horas da noite retirou-se para o hotel. Como o motivo de sua visita à cidade era uma elegante festa de grã finos no clube local, vestiu um fraque e tirou a cartola da caixa de papelão e sentou-se em uma escrivaninha para escrever, sempre a lápis, o artigo que seria publicado tem todos os seus jornais. Com a expansão da rede, em cada cidade onde havia um jornal seu foi preciso arranjar um linotipista que conseguisse interpreta os garranchos do patrão a fim decompor em chumbo os artigos que ele e assim era também em Belo Horizonte. Juntou o maço de papéis tomou um táxi na porta do hotel e a caminho da festa, deixou na portaria do jornal para ser composto.
Já era alta madrugada quando voltou ao quarto de hotel. Ao tirar o paletó do fraque, percebeu que um amontoado de folhas manuscritas — mais de um terço do artigo — tinha ficado no bolso interno da roupa. Irritado foi dormir certo de que no dia seguinte os jornais não publicariam seu artigo.
Acordou cedo e pediu que um estafeta do hotel comprasse na banca mais próxima um exemplar do Estado de Minas. Perplexo, percebeu que o artigo tinha sido publicado — e que alguém tinha cometido a ousadia de preencher, por sua conta, o buraco que ficara no meio do texto. Vestiu-se e correu para o jornal, aonde chegou tomado de fúria. Berrava palavrões pela redação, dizendo que um atrevimento como aquele era inadmissível. Ou o responsável aparecia ou ele demitia toda a direção. O cristo apareceu horas depois, era José de Souza Fortes, um jovem franzino responsável pela revisão das provas tipográficas de seus artigos, não importava onde tivessem sido escritos. Quando o rapaz, aterrorizado entrou na sala, Chateaubriand deu um murro tão violento sobre a mesa que derrubou no chão várias xícaras de café:
— O senhor é um filho da puta, um atrevido. Como é que o senhor se arvora o direito de escrever um pedaço de artigo que seria assinado por mim?
O jovem gaguejava:
— Mas doutor Assis, minha intenção...
Intenção é a puta que o pariu! Nos meus jornais só eu posso ter intenções|
— Mas doutor Assis, diariamente sou eu quem revisa seus artigos, eu apreendi o seu jeito de escrever, seu estilo, suas ideias. Eu não fiz isso por mal...
Por bem ou por mal, o senhor pode arranjar outro emprego. Está despedido.
Estudante pobre de medicina que dependia do salário para viver em Belo Horizonte, no dia seguinte, Fortes já estava empregado, mas vendedor de frutas no mercado no municipal. E foi lá, atrás de uma banca de verduras que ele foi localizado por Amarildo Bandeira de Melo chefe de revisão dos Associados em Minas.
- Vamos voltar ao jornal que o doutor Assis quer falar com você.
Não volto por dinheiro nenhum, ele me insultou, me humilhou, não tenho nada a conversar com esse nortista grosso. O que ele quer comigo insultar minha mãe outra vez? Não volto, seu Amarildo. Prefiro vender frutas ou ficar desempregado e voltar para Viçosa, mas aquele sujeito não me vê' mais.
Ainda insistiu:
- Você tem que voltar. Ele quer lhe pedir desculpas pela cena de ontem pode voltar que o homem está manso.
Voltaram juntos à redação. Chateaubriand estava de suspensórios, com as mangas da camisa arregaçadas. Na mão direita tinha o artigo já impresso e na esquerda as folhas que havia esquecido no bolso do fraque. Com um sorriso no rosto, abraçou o amedrontado revisor:
- Estou muito arrependido pelo que fiz com você ontem. Chamei-o aqui para pedir-lhe desculpas, mas principalmente para mostrar-lhe uma coisa inacreditável. Sente-se aqui, meu filho, e compare esses originais com o trecho o senhor completou.
José Fortes leu os rabisco, sem entender quase nada do que estava escrito e passou os olhos sobre os parágrafos que escrevera. Chateaubriand interrompeu-o:
Viu o texto que o senhor escreveu é exatamente igual, palavra por palavra, vírgula por vírgula, exatamente igual ao que eu tinha escrito.
Mas o rapaz constrangido:
- Mas foi isto que eu tentei explicar ao senhor ontem, Quem é obrigado a ler os seus artigos de um mesmo autor acaba pegando o estilo dele.
- Nada disso, meu filho, senhor só pode ter psicografado meu texto. Eu não tenho fé, não acredito em nada, mas sou obrigado a reconhecer que o senhor tem capacidades mediúnicas fortíssimas. Quanto é senhor ganha?
- No Estado de Minas trezentos mil-réis por mês, e no Diário da Tarde duzentos mil-réis.
- Pois então o senhor está readmitido com o salário dobrado. Vai ganhar seiscentos mil-réis no Estado e quatrocentos no Diário da Tarde.
Chateaubriand não imagina, naquele dia, que os inexplicáveis poderes paranormais de Fortes o acompanharia até a sepultura muitos anos depois.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
João Rodrigues Alves - O calunga de caminhão
João Rodrigues Alves - O
calunga de caminhão. Nasceu em Serra Negra - RN, no dia 5 de julho de
1912 e registrou-se alguns anos depois na cidade de Areia - PB. Na certidão de
nascimento consta apenas o nome de sua mãe dona Tereza da Conceição. Aliás, ele
sempre dizia, sem constrangimento, ser filho de lavadeira e de pai
ignorado. Orgulhava-se de não ter frequentado escolas e de ter começado
a trabalhar aos 12 anos de idade, como calunga de caminhão. Ao atingir a maior
idade, adquiriu carteira de habilitação de motorista profissional. Daí
por diante avançou na vida.
Conheci-o em 1934, trabalhando
em um caminhão (caçamba de madeira) de sua propriedade, transportando
material (pedra e barro) para a construção do açude de Boqueirão de Piranhas,
onde morava com a esposa (recém- casados) na casa de número 09, da rua
principal, (a mesma onde nasceu o senador Raimundo Lira). Naquela
época - 1934, eu tinha 11 anos e já trabalhava ajudando o mano Toinho (três
anos mais velho) a vender leite da vacaria de meu pai. Dessa fase, dois
episódios ficaram guardados na minha lembrança. O afago que Dona Mocinha
(esposa de João Rodrigues) dispensava a seus leiteiros e uma pedra em formato
de pepino, medindo uns 20 centímetros e pesando cerca de um quilo, de cor
esverdeada e bem polida, usada para escorar a porta da frente. Atraído pela sua
beleza natural', não hesitei em perguntar a uma garota da casa, que aparentava
ter a minha idade e que ajudava a dona Mocinha nos afazeres domésticos, que
pedra era aquela tão bonita! Respondeu-me que era um corisco e eu acreditei
Com o fim da construção do
açude, em setembro de 1937, João Rodrigues passou a residir em Cajazeiras,
levando suas economias, fruto de seu trabalho, suficiente para comprar um
caminhão novo, com boleia larga, confeccionada em madeira, adaptada para
carregar passageiros e passou a transportar, principalmente, algodão em pluma
dos maquinismos de Galdino Pires, em Cajazeiras e Antônio Gomes Barbosa, de São
José de Piranhas, para Campina Grande, sempre com a boleia lotada de
comerciantes que aproveitavam a viagem para fazer suas compras e transportá-las
aproveitando a volta do mesmo caminhão. Mas ele não só servia transportando a
mercadoria como também fazia o papel de cicerone para muitos desses comerciantes,
e mais precisamente àqueles que viajavam pela primeira vez, e ainda servia de avalista, no ato de eventual compra feita a
prazo.
Quando cheguei a Cajazeiras, no
ano de 1958, como fiscal de rendas, João Rodrigues já era considerado como um
dos principais empresários da cidade, e quiçá, da região. Possuía uma frota
composta de vários caminhões e alguns ônibus, servindo para transportar cargas,
de modo geral, inclusive combustíveis e também passageiros para Campina Grande.
O ônibus que fazia essa linha era conhecido como “a sopa de Seu João".
Apesar de ter tido uma infância difícil, João Rodrigues tornou-se um empresário
próspero. Além dos bens acima citados, era proprietário de uma grande casa de
peças e pneus, ainda tinha instalado na principal rua, um posto com bombas de
gasolina e óleo.
Foi o pioneiro da linha de
ônibus com itinerário registrado (na década de cinquenta) de Cajazeiras -
Campina Grande, denominada de Viação Andorinha, estendendo-se mais tarde até
João Pessoa e Recife, e na proporção que desenvolvia seu plano de expansão ia
também interligando Cajazeiras com novas linhas, a várias outras cidades
paraibanas, inclusive adquiriu e incorporou ás empresas já existentes, outra
empresa, denominada de Viação Princesa do Seridó, com sua expressiva frota,
cuja linha tinha o percurso de Natal (RN) via Caicó-Cajazeiras. Esta passou a
ser administrada pelo filho Zezinho. Aliás, Zezinho e Paulo, ainda
adolescentes, foram os únicos filhos integrados como sócios na firma do pai e
com ele trabalharam até a sua transferência para a Eternidade, enquanto as
filhas estudavam nos melhores colégios do Estado, desfrutando o máximo de
conforto que um pai rico podia oferecer.
Aqui abro espaço para descrever
um pouco seu perfil, inclusive fazer algumas considerações sobre sua pessoa e
seu comportamento:
Ele era uma pessoa
extrovertida; orgulhava-se de tudo que fez e de tudo que foi na vida; não
gostava de bajular e nem de ser bajulado. Também não gostava de etiqueta nem de
protocolo; não tolerava exibicionismo. Tanto assim que quando alguém o
procurava, mesmo para tratar de assuntos comercias, trajando terno e gravata,
ele perguntava em tom de ironia, se era vendedor de livros ou pastor
protestante, e para surpresa do excêntrico visitante justificava-se dizendo que
não sabia ler e nem entendia de religião. Era avesso ao diálogo. Suas decisões
eram tomadas de rápido improviso. Detestava vagabundagem. Para ele todo mundo
era obrigado a trabalhar para ter condições de garantir, no mínimo, sua própria
sobrevivência. pensava assim, talvez, pela sua condição de homem pouco letrado
- todavia de visão empreendedora.
Em nenhum momento ele se
distanciou de seus negócios - fosse trabalhando, viajando ou se divertindo.
Sabia como ninguém aproveitar todos os momentos que a vida lhe oferecia. Era
questão dele, se fazer presente a todas as solenidades - fosse cívica,
religiosa, social ou política. Nas quermesses, por exemplo, ele não só
comparecia, como animava os leilões, extrapolando os preços dos brindes
leiloados, para atormentar os que tinham pena de gastar. Sua contribuição, de
modo geral, era espontânea e significativa.
Cajazeiras conhecida como
cidade hospitaleira acolhia a maior parte dos viajantes que fazia a praça da
redondeza, e o principal motivo era o papo de Seu João. Fosse nas calçadas, nos
bares, nos restaurantes, nas boates, nos clubes sociais ou mesmo em seus
estabelecimentos comerciais ele se apresentava como um autêntico recepcionista,
e ainda fazia o papel de guia turístico da cidade.
Para finalizar, gostaria de
dizer que a Bíblia nos ensina que na face da terra ninguém se perpetua e nós
sabemos que tudo é passageiro. E para quem está vivo o encontro com a morte
pode acontecer a qualquer momento. Cedo, João Rodrigues foi arrebatado do
convívio da família e de Cajazeiras, quando completava 65 anos de idade, no
auge de seus negócios, inclusive era o diretor comercial da Concessionária
Volkswagen, lá mesmo em Cajazeiras, da qual era sócio com 50% do capital
integralizado e, ainda deixando para a família um invejável patrimônio e
exercia o mandato de vice-prefeito constitucional da terra que ensinou a
Paraíba a ler. Era casado com Dona Maria Mendes Rodrigues, cuja prole é
composta dos seguintes filhos: José (Zezinho), Paulo, Roberto, Tereza, Elisete,
Vanda, Maria, Francisca e Zélia.
Excerto da obra "Retalhos de Vida" de Pedro Lins de Oliveira, pags. 109-114
CAPÍTULO - X
terça-feira, 27 de outubro de 2015
TROTES BRASILIANOS do livro “Além do Feijão com Arroz”
"Nem Pedro Pio nem Paulo Trajano me alertaram sobre os trotes nos novatos.
E são muitos. Logo na primeira hora do expediente, me disseram que teria que conferir as somas dos
balanços das fichas cadastrais. Havia uma diferença de alguns cruzeiros entre a
soma total e o balanceie do banco. Na época, não havia qualquer
mecanização. Todas as operações de crédito rural eram
registradas em fichas — mais de três mil delas.
Depois de revelar que era gozação, pediram que eu comprasse no comercio local uma “máquina de achar diferença” e, na única
livraria da cidade, pedira CIC, os livrões com
a Codificação das Instruções Circulares tio banco. O dono da livraria se
prestou a participar da brincadeira. “Hoje
estamos em falta, mas você encontra em Sousa”, uma cidade vizinha.
Outro trote era muito mais torturante. Já nas
primeiras horas, meus colegas disseram que, sendo o
novato, eu deveria pagar jacaré de coco para todos no
intervalo das 10 às
10,15. No semiárido tem jacaré?, estranhei. Mas era outra a questão que afligia:
eu não tinha dinheiro. Nem comigo e nem guardado. Como é que pagaria o tal jacaré para todos os mais de trinta funcionários? Cada vez que davam um tapinha em meu ombro e
avisavam, tentava sorrir. Não sabia o que fazer tinha vergonha de dizer que não poderia pagar.
Saía um meio sorriso, com cara de deus-me-acuda.
No intervalo, enquanto os funcionários tomavam café,
fumavam seus cigarros, puxavam papo,
eu só pensava no tenebroso jacaré. A iguaria do vendedor ambulante, pão doce em forma do bicho, coberto de
coco amarelo me apavorou. Ainda que confeitado, era um réptil de sangue-frio, quase sangue de barata. Meus colegas se
empanturravam, pediam permissão para repetir. “É...
claro...”. No final
das contas (e que contas!), cada um pagou o
seu. Não sem antes me torturarem até onde podiam".
Maílson da Nóbrega - “Além do Feijão com Arroz”
Pag. 80/81
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
domingo, 18 de outubro de 2015
Vou embora. Não posso aceitar isso, em nome da minha dignidade
Extraído do Livro ""Do golpe ao Planalto - uma vida de repórter".
Ricardo Kostcho
Pág. 225
O único problema mais que tivemos no relacionamento coma imprensa ao longo da campanha aconteceu por culpa minha. Lula já havia mantido encontros e participado de almoços com os dirigentes dos principais meios de comunicação, mas resistia a atender ao convite da Folha para o tradicional almoço com os diretores, editores e repórteres especiais. Quase toda semana, “seu” Frias o alguém a seu pedido repetia o convite, que eu voltava a levar a Lula. Este alegava que noutras ocasiões tinha ficado contrariado com a maneira pouco cortês como fora tratado no jornal. Tanto insisti, que ele acabou me autorizando a marcar o almoço. Impôs, no entanto, que o número de participantes fosse reduzido, para que pudesse conversar melhor com o “seu” Frias.
Em razão de algum mal-estar ocorrido em almoços anteriores., dos quais não participei, o clima já não pareceu muito amigável desde o momento em que “seu” Frias recebeu Lula e José Alencar. Otavio Frias Filho ficou calado, enquanto Lula não parava de falar de seus planos para o país e da importância de ter um vice como Alencar. Assim que os comensais sentaram à mesa, Frias Filho disparou a primeira pergunta: Se Lula se sentia em condições de governar o país, mesmo sem ter se preparado paara isso, não sabendo nem falar inglês. O candidato fez uma expressão de incredulidade, olhou para mim como quem diz: ‘E eu tinha que ouvir isso?’, engoliu em seco e deu uma resposta até tranqüila diante daquela situação constrangedora.
Como se tivesse sido ensaiadas as perguntas seguiram no mesmo tom hostil ao convidado até que, já quase na hora em que seria servida a sobremesa, alguém quis saber como ele se sentia ao aceitar uma aliança com Paulo Maluf. O argumento era que, se o PL apoiava Maluf na eleição pra governador de São Paulo, o candidato do PT a presidente também estaria se aliando ao político que mais combatera durante toda a história do partido. Não havia, porém, nenhuma aliança em São Paulo entre o PP e o PT, que disputava a mesma eleição tendo como candidato o deputado federal José Genoíno. Foi a gota d’água. Lula não respondeu; levantou-se, dirigiu-se a “seu” Frias e comunicou: ‘O senhor me desculpe, mas eu não posso mais ficar aqui. Vou embora. Não posso aceitar isso, em nome da minha dignidade’.
Ficou todo mundo paralisado. “seu” Frias levantou-se também. Antes de sair, Lula ainda disse a Otavinho, o único que permaneceu na sala: ‘Eu não tenho culpa se você está nervoso porque o teu candidato vai mal nas pesquisas’. Para ele a Folha estava apoiando José Serra. Pegando no braço do candidato, “seu” Frias o acompanhou até o elevador e depois até o carro, no estacionamento, com os outros todos caminhando atrás. ‘ Nunca tinha acontecido isso antes na nossa casa’, lamentou.
Dados Técnicos:
Do golpe ao Planalto - Ricardo Kotscho
Cia das Letras - 2006
368 Páginas
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